segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Funeral arbóreo

       Outro dia cruzava o retão de manaíra (Av.Flávio Ribeiro Coutinho), enquanto aguardava o sinal verde, fiquei olhando o desbragado cortejo fúnebre de uma frondosa palmeira imperial afastando-se e sumindo. Igual a um pobre-diabo, sem direito ao enterro digno, missa de sétimo dia, visitas de pêsames e outros rituais que fazem parte de nossa tradição.
            É. Foi um sentimento de choque, raiva, perplexidade e aturdido vê essa árvore sendo conduzida, numa carroça, por quatro empregados fardados. Em razão da distância, não deu para identificar a organização para qual serviam.
            Puxa, que tristeza, que infortúnio crasso! Reconheço que o luto é uma manifestação humana de pesar pela morte de outro ser humano. Mas essa cena melancólica não poderia ser tão diferente diante daquilo que acabara de presenciar. As demais palmeiras, ali plantadas, eram como parente e amigos chorando a perda do ente querido. Clamando: “Eles querem me matar!”. Ou, então, no ato de desespero: “Não quero morrer!”.
            Não pretendo acreditar (já acreditando) que um provável mané graduado, com PhD em tudo que envolve paisagismo e meio ambiente, tenha planejado o “estreito canteiro central” dessa importante artéria pública. Ora, o manejo impróprio, a falta de um distanciamento adequado que permita o livre crescimento dessas palmeiras, tiram-nos não só a plasticidade de sua beleza, como a sombra e o conforte térmico.
            Sem soberba, sem arroubo de imaginação, mas muito menos com exagerada humildade de conhecimento, necessário dizer e entender que árvore tem sua arquitetura própria antes de escolher. Plantando aleatoriamente sem se preocupar com o crescimento saudável das espécies, a saúde das árvores é prejudicada, ficando, por sua vez, susceptíveis a quedas.
            Lastimável que as pessoas parecem ignorar o fato de que as árvores crescem e que têm raiz, pois árvores mutiladas perdem tanto a função de sombrear, quanto a de liberar oxigênio. Além de ficarem expostas a bactérias, fungos e vírus, provocando os mais variados tipos de doença.
            Intui-se que o idílio bucólico vivido em plena área urbana é fruto da falta da consciência ambiental, da consciência verde dos moradores. Mesmo sabendo que o fator essencial de melhoria da vida urbana é uma necessidade ambiental.
            Claro que vou ficar frustrado com os meus apelos se não forem atendidos, mas me sentirei orgulho de ter feito a minha parte. Agora, as autoridades devem decidir como agir para que o resto de tais palmeiras não seja dizimado, esmigalhado, machucado. Detalhe: sem desculpas nem trocadilhos baratos.


                                                    LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                        (lincolnconsultoria@hotmail.com)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

História do Fusca

Você sabe quem é o legítimo inventor do Fusca? Não? Então basta ler o livro “A verdadeira história do Fusca”, do jornalista holandês Paul Schilperood,, recentemente publicado aqui no mercado editorial brasileiro.
            Revela este autor que a concepção do Fusca, seu designer e o próprio conceito de “Volkswagen” (ou, traduzindo, carro do povo) foram criados por um engenheiro judeu Josef Ganz e, abruptamente, apropriados por Adolf Hitler.
            Após essa manobra ignóbil o projeto do Fusca foi adaptado para a produção em série por Ferdinand Porsche, tornando-se um dos maiores orgulhos do regime nazista (1933-45).
            Segundo o genial Ganz, em 1931, demonstrou ser possível construir um carro leve, pequeno, com estabilidade e dirigibilidade excelentes. Contrariando, deste modo, a maior parte dos engenheiros alemães que achava que um carro precisaria ser grande e pesado para apresentar boa estabilidade.
            Apesar de levar fama de não deixar ninguém na mão, mesmo assim, deu seus últimos suspiros no Brasil, em 1996, estereotipado como carro de pobre, suburbano, feinho, desconfortável e barulhento.
            Tais registros me fizeram viajar no tempo e lembrar um fusquinha pertencente ao meu cunhado, Fernando (conhecido por “ventania”, de tão magro), à época, estudante de engenharia civil, que o pilotava como se fosse um milionário excêntrico e “bon vivant”.  De bom (acho) só tinha mesmo o motor, que ele tanto se orgulhava; o resto era uma extenuante comparável carroça que sacolejava, de um lado para o outro, para cima e para baixo. O danado se exibia de cor verde-abacate, porém desbotada pela química do tempo. O tanque de combustível era furado, e não passava da metade de sua capacidade. Não possuía limpador de pára-brisa, só um farol funcionando (e zarolho!). Os pneus eram carecas, igual à careca de “Ronaldinho”.
            É exagero? Não. Tem mais: para pegar era um “deus-nos-acuda”, um fuzuê dos diabos, mesmo porque a bateria tava mais arriada do que calcinha em filme de pornochanchada. O freio, por sua vez, era como cachorro vira-lata: só ameaçava pegar, o jeito era recorrer ao freio-motor. Para encabular, soltava aos olhos de todos, um decalque em letras garrafais fixado no vidro traseiro: "É véio, mas tá pago".
            Uma coisa é certa: essa história e tantas outras fazem parte da doce nostalgia e da revolução industrial automobilística, onde o Fusca deu início a um novo modo de pensar em carro. E que Josef Ganz seja, agora, imortalizado como o seu real inventor.


                                            LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                (lincolncartaxo.blogspot.com)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

LIDERANÇA DA MULHER


            Foi-se o tempo, há anos-luz, em que a mulher (principalmente a mulher tradicional brasileira), pelos seus 6-7-8 anos começava a ser treinada para o casamento e inibida para determinado tipo de liberdade, que hoje, é tão comum e natural.

            De outrora: o enclausuramento da mulher e o impedimento de relações desafiadoras, só resta, tão somente, lembranças e fragmentos históricos.

            Apesar de alguns (poucos) viés caricatos sobre a mulher atual, moderna, é indiscutível o reconhecimento do seu estilo peculiar de Liderança Administrativa - nas organizações privadas ou públicas.

            Os homens já não mais ignoram o seu potencial profissional.  Seja no uso do poder, seja no trabalho de equipe, seja na eficiência interpessoal, seja na administração de conflitos, seja na intuição e solução de problemas, etc.

            Essas habilidades aqui apontadas são na verdade funções simples e diretas como ouvir cuidadosamente e dar um posicionamento claro e direto.  Tal singularidade repousa na atenção que as Líderes Femininas dão às sutilezas das interações humanas, a competência com que usa essas  destrezas e os resultados que suas abordagens produzem dentro das organizações.

            Não é à toa que, geralmente, as mulheres entendem a dinâmica dos relacionamentos humanos e estão mais interessadas nisso do que  a maioria dos homens.  Elas têm melhores habilidades de percepção, são capazes de prestar mais atenção ao seu ambiente, de colher mais dicas e questionamentos, e ter empatia pelos sentimentos e reação dos outros.

            A mulher percebe claramente quando a outra pessoa está aborrecida ou magoada. O homem só desconfia que há algo errado depois de lágrimas, acesso de fúria ou tapas na cara.  Como perpetuadora da espécie e guardiã da cria, a mulher precisava ser capaz de captar mudanças sutis nas atitudes e no humor dos outros.  Daí a razão dessa qualidade  quase que exclusiva.

            Assim, para o bem de nosso futuro, sem prejuízo inarredável da sua áurea feminina, esperamos que essa “liderança” seja cada vez mais acentuada e encorajada.


                                                                      LINCOLN CARTAXO DE LIRA  



REDUÇÃO DA IDADE PENAL


             Atualmente, com recrudescimento da violência nos grandes centros urbanos, urge superar esta situação caótica e demonstrar que um outro mundo é possível.   Não com o simples truque da REDUÇÃO DA IDADE PENAL, como sugere os nossos parlamentares já tão desgastados moralmente, que procuram desesperadamente recuperar às suas imagens diante da opinião pública, aproveitando a ocorrência dos últimos assassinatos praticados por adolescentes e jovens.

             Chega de verborragia.  Aumentar a população prisional, num sistema reconhecidamente falido, é tornar essa gente piores e gerar ainda mais criminalidade no país.

             É necessário, sim, acabar com precariedade dos serviços públicos, através de ações preventivas, reformulação das polícias e do sistema penitenciário, como também, melhoria das casas de internação de adolescentes infratores, da reforma do Código Penal e do Código de Processo Penal.

             Eis que é inequívoco e verossímil o fato de que a enorme desigualdade social brasileira, com amplos contingentes de miseráveis sem perspectivas de melhorias é que leva essas crianças já nascerem condenadas à prostituição e ao narcotráfico.

              Pobreza e marginalidade costumam estar freqüentemente ligadas.  Tirando-se algumas exceções, os marginalizados são pobres;  porém nem todos os pobres incluem-se na condição de marginalidade.  Daí, um perfeito ambiente social para a criminalidade.

              É preciso garantir oportunidades, perspectivas e um futuro digno para as nossas crianças, e não, simplesmente cárceres, sem qualquer chance de recuperação e reinserção na sociedade.

              O resto, é desperdício de energia, tentando entender o que não pode ser compreendido.

              Enfim, adverte o provérbio:  “Eduque a criança e não será necessário castigar o adulto”.


                                                                   LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                                           

BENITO DI PAULA


      Ora, vejam só.  Depois de tantos anos sem vê esse cantor, compositor e pianista , não é que, neste último domingo, eu sou agraciado com a sua presença no Programa RAUL GIL – Homenagem ao Artista.

       Lembro-me bem, e parece ter sido ontem, nos anos 70 e 80, consagrou-se como um dos maiores nomes de um estilo conhecido “samba jóia” ou “samba canção”.

      Com interpretação chorosa ou exaltada e trajando fraque, dava início assim, a época, o modelito “brega chique”.  Com aparência sempre marcante (bigodão, barbicha e costeletas).

      Destituído da aura e do brilho de suas atuações do passado, agora, com sorriso meio torta e dissimulado, cerrava os dentes.  Engolia as lágrimas que lhe ameaçava, à medida que era historiado àsua obra.

      Pouco a pouco, com as homenagens que iam lhe prestando, através dos Pequenos Talentos (cantores mirins), de seus colegas de profissão e de alguns familiares, ele foi dando conta do que havia à sua volta.

      Era de apercebermos, nitidamente, o sinal de fraqueza desse grande artista.

      Aquela pessoa que se movia no palco, com desenvoltura e talento, com sorriso fácil e afável, agora era só tristeza em seu olhar.

      Simples como somente os sábios consegue ser, poeta romântico como o é, conhecedor da alma humana, sabedor de suas fraquezas, que ora tanto lhe afligem, mas também da grandeza que no momento tanto busca.

      O seu corpo de compleição franzina e de baixa estatura, sem mais aquela sua irreverência e malandragem carioca, pensativo, com ar de densa alegria e saudade ao mesmo tempo, no final, deu um breve show de musicalidade, afogando todos num tsunami de emoções.

      Aclamado entusiasticamente, agradeceu versejando-nos:  “Você é culpado do meu samba entristecer, ah eu vou-me embora”.


                                                                   LINCOLN CARTAXO DE LIRA      

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A mentira

            Tenho um amigo que gosta de contar vantagem.  Um autêntico contador de lorotas de fazer inveja aos novelistas e romancistas de plantão. Tomado pelo “delicioso”  anestésico da mentira, ele está sempre se preparando e ensinando para sacar mais uma; se lançando totalmente à cena do escopo da mentira de ocasião – espécie de pecado capital.
            O ato mórbido da mentira, a chamada mitomania, é mais comum do que se pensa. Pelo menos, a margem que separa a mentirinha de todo dia do mentiroso convicto parece estar cada vez mais estreito. Muitas vezes, o vício é justificado por nenhum motivo, ao menos aparente. É cada vez mais comum indivíduos que mentem pelo simples prazer de fantasiar.
            Na história e na literatura, há muitos famosos com distúrbio de mitomania. Quem não se lembra da dupla João Grilo e Chicó, de o Auto da Compadecida, e do Barão de Münchhausen que se vangloriava de ter atravessado uma linha de inimigos montado em uma bala de canhão.
            Pensando bem, nem toda mentira tem perna curta (como se assevera). Em alguns casos, pode prevalecer o provérbio chinês “Um homem inventa uma mentira e dezenas de outros a propaga como verdade, às vezes, durante século”. Ressalta-se, ainda, a sua prática no desenvolvimento da criatividade: “Qualquer um sabe dizer a verdade, mas é preciso inteligência para mentir”.
            Vejam, só. Raramente as pessoas admitem ser mentirosos. O indefectível Tim Maia foi uma exceção, quando afirmou, fanfarronando: “Não fumo, não bebo, não jogo, não cheiro; só minto um pouquinho”.
            Alguém declarou que “Deus não é contra a mentira se a causa é nobre”. Graças a isso, foram perdoados: Advogado – Esse processo é rápido; Ambulante – Qualquer coisa volte aqui que eu troco; Anfitrião – Já vai? Ainda é cedo!;  Aniversariante – Presente? Sua presença é mais importante; Bêbado – Sei perfeitamente o que estou dizendo; Delegado – Tomaremos providências; Desiludida – Não quero mais saber de homem; Devedor – Amanhã, sem falta!; Encanador – É muita pressão que vem da rua; Ladrão – Isso aqui foi o homem que me deu; Mecânico – É o carburador; Muambeiro – Tem garantia de fábrica; Namorada – Pra dizer a verdade, nem beijar eu sei...; Namorado – Você realmente é a única mulher que eu amei; Orador – Apenas duas palavras; Sapateiro – Depois alarga no pé; Vagabundo – Há três anos que procuro trabalho e não encontro.
            Afinal de contas, tudo isso somado e misturado, o que é a mentira? Como diria Mário Quintana: “É só uma verdade que esqueceu de acontecer”.

                                                                  LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                   (lincolnconsultoria@hotmail.com)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dor de Cotovelo

            Já revelei aqui neste espaço que uma das músicas mais bonita da MPB é aquela composta por Nelson Motta e cantada pelo Lulu Santos, que diz que na vida tudo passa, tudo sempre passará, como uma onda no mar. No entanto, para o grande compositor gaúcho e boêmio Lupicínio Rodrigues, isso não é verdade, é uma deslavada mentira.
            Valendo-se de sua “dor de cotovelo” que tanto lhe torturava e que não se libertava (de vítima) dos amores e desamores, de paixões e desilusões avassaladoras, fez transportar para as canções essa melancolia como bem é retratada em “Nervos de aço”: “Você sabe o que ter um amor, meu senhor/Ter loucura por uma mulher/E depois encontrar esse amor, meu senhor/Nos braços de um tipo qualquer”. Como se vê, um caldeirão pulsante de amargura.
            O cenário é o mesmo: o cara entra no bar sozinho e magoado, ferido, pisado, contundido amorosamente. Na cabeça, a amada, “aquela ingrata”, que o abandonou por outro (Ricardão!). Como não poderia deixar de ser, pede um chope, um uísque ou uma aguardente, ficando por ali durante horas, remoendo a tristeza pela separação. Sem tergiversação, um autêntico folhetim de libelo “cornista”.
            Ninguém soube expressar como Lupi (carinhosamente como era chamado) a mais acachapante e abjeta “cornitude”. Diferentemente do Noel Rosas, Oreste Barbosa e Chico Buarque que escreveram brilhantes canções sobre o “descorno”. Ele era de enfiar o pé na lama e se expor sem restrições suas bizarras mágoas.
            O barato de suas canções é o texto musical. Verdadeiro oceano de trivialidades amorosas, puxada pela filosofia “botequinesco” e da dramaturgia diária da boemia. Um complexo emocional em que se mistura “dor de corno”, saudade, algum desejo de vingança, muito amor mal cicatrizado.
            Por isso, que se tornou um dos ícones da fossa e da desilusão. Cujo tema de suas canções, invariavelmente baseado em fatos reais, era centrado na danada da traição. Veja a sua manifestação de revolta nos versos de “Nunca”: “Nunca/Nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar/Nem mesmo assim/As pazes contigo eu farei”.
            Tinha orgulho de ser boêmio. Costumava dizer “É melhor brigar junto do que chorar separado”. Nas suas desventuras com as mulheres que desfilaram pela sua vida, levou-o a compor e a gravar umas 150 canções (marchinhas de carnaval e sambas-canção), músicas que expressavam sentimentos de um amor perdido.
            Outro catedrático da boemia, Vinicius de Morais, confessava que “Todo poeta só é grande se sofrer”. Assim, em 1974, aos 59 anos, conhecido pelo estilo bordão “dor de cotovelo”, morreu como viveu: do coração.


                                               LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                         (lincolnconsultoria@hotmail.com)