domingo, 22 de setembro de 2013

Toca Raul!



            No último domingo valeu por um programa de rádio que fez um tributo a Raul Seixas e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim.
            Passados 24 anos de sua morte (1989), ele continua sendo uma das principais referências musicais do rock nacional. O artista, que já era um ídolo para as gerações dos anos 70 e 80, virou um mito inclusive para parte daqueles que sequer haviam nascido quando o compositor levava platéias ao êxtase.
            O sucesso de Raul junto às novas gerações pode ser atribuído, em parte, a ausência “de um sentido de vida que vá além dos limites do troglodita capitalista que só quer consumir e se recusa a sentir e a pensar. Por isso, que uma boa parcela da juventude atual volta os seus olhos para os ídolos de um passado que produziu um sentido de vida”, pontifica o historiador Luiz Lima, autor de uma tese de dourado sobre Raul Seixas.
            A figura do Raul ainda gera controvérsia. Sua classificação varia de visionário, lunático, sonhador, esotérico, místico a revolucionário, gênio, profeta e incompreendido. Fato é que a “Sociedade Alternativa” defendida por ele desagradou a ditadura civil militar que o prendeu e o torturou. Com altivez: pôs o dedo na hipocrisia, sem dar espaço para embromation.
            A trajetória desse artista talentoso e anárquico é marcada por 21 LPs, contratos com as maiores gravadoras do Brasil. Com sua rebeldia, compôs músicas que se tornaram clássicos, como Maluco Beleza, Gita, O Trem das 7, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas outras.
            Alguns estudiosos identificam Raul como anarquista na exata medida em que detona o bom-senso e o senso-comum, fundamentos da ideologia das classes médias burguesas. Pessoalmente, penso que sim, que seu visual, canto e ritual criavam um diferencial, um distanciamento, uma instabilidade que percorre como uma flecha aqueles que, para usar uma gíria dos tempos de Raulzito, não “trasam” bem essa idéia de poder.
            Sim, Raul é um trovador, como Bob Dylan nos Estados Unidos. Também transita na grande produção cordelista. É um dos personagens preferidos dessa obra cultural, só perde para Lampião. Folhetins engraçados, como “O Encontro de Raul Seixas com John Lennon no Céu”; “O Encontro de Raul Seixas com Zé Ramalho na Cidade de Thor”; “Cowboy Fora da Lei”.
            Enfim, quem já não presenciou numa festinha, show, baladas e bares do Brasil, no intervalo/pausa, ouvir-se um grito: “Toca Raul!”. É um bom exemplo da sua atemporalidade.


                                                                     LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                     lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                                      Advogado e Administrador de Empresas

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A doce Baby



            Depois de um dia estafante de trabalho, chego em casa estressado, exaurido, amarrotado, moído, descabelado e monossilábico, sem outro desejo senão ligar a TV e assistir os noticiários jornalísticos, como forma de esvaziar a cabeça. Isso antes. Agora, depois que ganhei de presente dum fraterno amigo a minha carinhosa Baby (poodle, hoje com dois anos), tornou-se diferente às minhas queixas da vida moderna. Traduzindo, assim, tão bem a máxima “Viver é arte do encontro”, sentenciada por Vinicius de Morais.
            Tenho certeza que Baby é um cão com alma humana. Tem sentidos apuradíssimos. Juntos, desenvolvemos uma profunda afeição um pelo outro, como também um sentimento de extrema confiança, conhecido exemplarmente como fidelidade canina. Nossa! Ainda teimam, segundo a teoria, que o parente mais próximo do homem é o chimpanzé. Não, mil vezes não! Na verdade o mais próximo é o cachorro.
            Eu me lembro do dia em que adentrei no apartamento de um hotel, como bebê ela se fosse, sem que ninguém apercebesse. Toda enrolada num lençol, com aquele cuidado especial tão bem ordenado pela minha consorte. Foi um deus-nos-acuda quando dirigimos à recepção para fazer o intolerável check-in. De repente ela mexeu uma das patas e seus olhos discretamente fitaram os meus, e eu pressenti que estava me chamando. Aproximando-a, no mais perfeito estilo “hollywoodiano”, coloquei a minha mão sutilmente sobre a sua cabeça, e silenciosa ali permaneceu, como entendesse o instante crucial que ora aprontávamos – misto de ousadia e esperteza.
            É certo que sou um chato patológico quando alguém usa de grosseria e falta de carinho para com os animais. Especialmente os cães, que não distinguem se seu dono é um mendigo ou um grande estadista. Eles são programados para servir e distribuir afeto. Pesquisas de comportamento mostram que, mais até do que amigos, esses bichos de estimação são atualmente vistos como filhos ou irmãos em boa parte dos lares que os acolhem. Além disso, é antídoto para o ser urbano que enfrenta crise de referências, notadamente os que são escravo da vaidade e da futilidade.
            Não sabia?! Já estão treinando e educando os cachorros para o futuro. Ou seja: estão ensinando cachorro a ir à restaurante, a supermercado, a cinema. Logo, logo, cachorro estará viajando de avião. Preferência na primeira classe. Pensando bem, até que não é uma má ideia. Eles merecem!
            Tem mais: reconheço em Baby, com perdão da transgressão, uma alma compreensiva, sempre disposta a oferecer o ombro amigo e ajudar alguém nos momentos difíceis. Pela sua meiguice e inteligência sinto que há no seu íntimo um grande desejo: nascer humano em sua próxima encarnação.


                                                               LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                            Advogado e Mestre em Administração

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A crise da Petrobrás



       Quando analiso a situação financeira da Petrobrás, me cai a ficha de que a coisa está pior do que eu imaginava. É sério. Com agravante: não vemos nenhum economista salsichão na mídia falando sobre essa crise que afeta um dos grandes patrimônios e orgulho do povo brasileiro.
            Quem não se lembra, há sete anos atrás, o nosso então presidente Lula afirmando que o nosso País alcançara a autossuficiência na produção de petróleo. A verdade é que a Petrobrás tem produzido cada vez menos, mesmo encontrando cada vez mais jazidas. Só em 2012, o Brasil importou R$ 15 bilhões em derivados em petróleo. Isso representa, nesses mesmos sete anos, um déficit superior a R$ 57 bilhões na balança comercial do petróleo e seus derivados.
            Tem mais: a Petrobrás em vez de encomendar as suas plataformas junto à SINAVAL – Sindicato Naval, como prometeu o trepidante Lula, preferiu locar plataformas com as empresas estrangeiras. Só em 2011, gastou R$ 4 bilhões, e em 2012, R$ 6 bilhões em locações.
            Vamos prosear mais um causo. Em 2006, uma empresa belga comprou uma falida refinaria no Texas (EUA), por US$ 42 milhões. Pouco meses depois, essa empresa vendeu a tal refinaria por US$ 1,2 bilhão para a nossa querida Petrobrás. Passado, pouco tempo, acreditem, a Petrobrás verificou que tinha feito um mau negócio e resolveu vender a citada refinaria. Mandou avaliar. O valor aferido foi menos de US$ 100 milhões.
            Aos trancos e barrancos, para construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, em parceria com o velho “estadista” Chávez, que não vingou, foi projetada a um custo de R$ 5 bilhões. O último relatório da Petrobrás aponta um custo até hoje de R$ 35 bilhões.
            Na lógica dessa pedagogia da leniência e da irresponsabilidade, o meu amigo Cordeiro, habitualmente mencionado aqui, dá o seu testemunho de desequilíbrio dessa companhia, quando retirou o seu dinheiro do FGTS (50%), igual a milhares de pequenos investidores, e aplicou nas ações da Petrobrás. Resultado: perdeu 50% do seu suado patrimônio.
            No mundo corporativo, a situação surreal da Petrobrás é ou não é de perplexidade. Mormente pela ética fingida, exibida apenas como fechada, na qual se preza o que não se pratica. Vixe... Por que eu fui falar?
            De fato, a bagunça da gestão da Petrobrás não pode pautar nossas consciências nem subverte a verdade. É meio clichê o que vou dizer: aqui está um bom exemplo de que vivemos no “capitalismo caipira”, que ainda aposta no compadrio, amizades e troca de favores – e não valoriza a meritocracia e o talento.


                                                                     LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                      lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                                       Advogado e Administrador de Empresas

                                                                    

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Histórias da Bossa Nova



Boa parte dos que me leem neste espaço já sabe que sou um apaixonado pela Bossa Nova. Cuja característica marcante de suas músicas era tocar e cantar baixinho em tom quase falado. Tornou-se para mim uma espécie ave rara e fascinante.
            A época áurea da Bossa Nova foi bem no início da década de 60. Pois cantar em seu gênero rendia fama e prestígio. Foi um período muito fértil, onde suas estrelas - como Vinicius de Morais, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli, João Gilberto, Roberto Menescal, Carlos Lira e tantos outros - compunham com uma felicidade pra caramba. Livre e sem amarras.
            As suas canções falam sobre tudo aquilo que seus fãs gostariam de ouvir: o amor, a praia, o mar e tudo isso ficou registrado nos versos de suas belíssimas melodias. A paixão pelas suas músicas, através de textos inovadores e simples, lhes tornou avesso aos critérios ideológicos, mesmo que a opinião da crítica fosse diferente das suas.
            Muita gente diz que a Bossa Nova não teve influência do jazz, mas, segundo Roberto Menescal, teve sim. E mais do que isso, era a maior influência de estilo da sua turma: o copo de uísque em sua mão, o cigarro na outra, a gravata meio frouxa. Fazendo tudo o que der na telha para nosso deleito, admiração e inveja.
            Ele confessa ainda que, em 1960, essa melodia inovadora começou a sair do Brasil e influenciar o jazz, tanto que quando chegaram aos Estados Unidos pela primeira vez, em 1962, todos os músicos bons de jazz tocavam - ou tentavam tocar – Bossa Nova. E de repente, os idealizadores desse movimento musical estavam lá, vendo toda essa turma, de quem eram grandes fãs, gravando as suas canções. Incrível, não?
            Outro dia, bem de manhãzinha, cruzei aqui na praia de Tambaú com um boêmio das antigas cantarolando “O barquinho vai / E a tardinha cai...  Dia de luz, festa de sol”. Aí sentei e matutei um tempão. Parecia o “Pensador de Rondin”. Senti que ele tinha algo a dizer. Eu tinha algo a ouvir. Mesmo distanciando não deixei de lhe olhar, lhe olhar e lhe olhar.
Fiquei, sim, emocionado. Foi nesse momento que a ficha caiu para renovar a minha prazerosa sensação mental por um estilo que até hoje é cultuado e influencia artistas da música. Fenômeno “hors-concours” por ser muito peculiar, pela simplicidade e pelo carisma de sua sonoridade.
            Pensemos: quem diria que aquela música feita sem a mínima pretensão e sem achar que seria algo duradouro, saísse definitivamente da timidez do apartamento da Nara para ganhar o mundo.

                                                                 LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                  lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                                   Advogado e Mestre em Administração
               

domingo, 1 de setembro de 2013

Inédito viável



       Continuaremos sendo ingênuos?  Claro que não.  Calderón de la Barca dizia: “Cuidado com águas mansas”. Ou seja, estava tudo aparentemente em ordem e tranquilo por aqui, mas de repente desbotou a voz raivosa das ruas.
            Realmente vivemos no País da piada pronta, quando vejo a decisão triste e lamentável da Câmara dos Deputados em absolver o parlamentar Natan Donadon, mesmo cumprindo pena em seu novo gabinete (presídio). E agora, vamos mais rir de quê? Diante de tamanha ironia, peço ao bom Deus que não permita que essa juventude que inundou as ruas do Brasil seja tomada pelo cansaço, pela decepção e pela desesperança.
            Pois é. O recado das ruas não poderia ser mais perceptível e afrontoso. É bom lembrar que, no mês de junho, tivemos várias mobilizações de jovem, pedindo passar a limpo o País, se insurgindo contra a forma de fazer política, contra a falta de representatividade dos políticos e a desconexão entre as necessidades do povo e as agendas do poder político.
            O escritor uruguaio Eduardo Galeno usa uma expressão para a palavra “utopia” que eu acho ótimo. Ele diz: “A minha utopia é o meu horizonte”. E aí completo: sonho é diferente de delírio. Por isso, não poderemos ficar numa postura de acomodação, de entorpecimento, achando e dizendo o tempo todo: “Alguém tem de fazer alguma coisa”. Esta frase tem uma resposta direta: Sou eu, como cidadão e cidadã, que tenho de fazer. Pode crer, não é delírio, mas um sonho verdadeiramente plausível.
            Há um canto clássico do repertório brasileiro chamado “Juízo Final”, de autoria de Nelson Cavaquinho e Elcio Soares: “O sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente”. Piegas? Não.  Simplesmente fascinante! Perfeito! É o sentimento de esperança de ir atrás, de se juntar e de não desistir.
            É curioso notar que essa esperança torna-se mais emblemática na relação Estado-sociedade: ambos têm obrigações e ambos têm direitos. Vamos acabar com essa conversa conceitual comum de que a educação, saúde, transporte e habitação são direitos do cidadão, dever do Estado. Ora, cuidar para que o Estado cuide é um dever nosso. A tarefa do Estado é cuidar. A nossa tarefa é cuidar para que o Estado cuide.
            É preciso esperançar de verdade, indo atrás do que Paulo Freire chamou de “inédito viável”, isto é, aquilo que ainda não é, mas pode ser!


                                                                     LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                      lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                                                               Advogado e Administrador de Empresa