terça-feira, 17 de outubro de 2017

O risco do xaveco

            Vamos começar do zero: o que é xaveco? Xaveco é a abordagem masculina no intuito de conhecer uma mulher ou conversa de quem deseja conquistar alguém. O que seria de nós se Adão não tivesse buzinado alguma coisa na orelha de Eva?
            O leitor pode estar perguntando: “Mas isso não corre o risco de ser encarado como assédio sexual?”.  Claro que Sim! Nota: o medo de sofrer abusos e assédios sexuais afeta a maneira como 3 em cada 10 mulheres se vestem – segundo pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria).
            Com sinceridade, aqui vai um conselho aos homens brasileiros: não ponham as mãos nas mulheres sem conhecê-las, sem ter certeza de que o seu gesto de carinho ou de desejo será bem-recebido. Lamentavelmente, ainda existe na cultura brasileira a imagem da mulher objeto. Basta ser mulher e estar no espaço público para, em algum momento da vida, receber cantadas masculinas.
Na minha mocidade, mexer nos cabelos de uma moça desconhecida ou mesmo tocar o corpo dela durante a primeira conversa era aceitável, era um simples xaveco. O pior que poderia acontecer era a garota fechar a cara e ir embora – e muitas faziam isso. Mas isso já faz 40 anos.  Agora a situação mudou.
Tem homem que vê a cantada de rua como elogio. Pensa que a mulher gosta e que está na rua para isso mesmo. Agora, indignada com o ato de invasão de sua privacidade, com liberdade de pôr a boca no trombone, a brasileira tem apoio da lei e disposição pessoal para expor os folgados aos piores vexames – e, algumas vezes, à prisão.
            Muitos caras por aí se acham dom-juam das garotas. Esquecem eles que o cenário em torno do corpo feminino mudou. Não há espaço para contato sem consentimento. Tampouco é aceitável fazer galanteios inadequados à gata cobiçada.
            Na dúvida com a ação do xaveco, desacelere.  E fim de papo.


                                           LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                            lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                              Advogado e mestre em Administração


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Paris: exemplo de mobilidade urbana

            Volto ao tema por me parecer inesgotável. Notadamente quando cravei os olhos naquele texto jornalístico em que destacava que Paris quer ser a primeira metrópole sem carros até a Olimpíada de 2024.
            Para aliviar as agruras do trânsito, Paris já está implantando iniciativas com vistas ao futuro: elevou o preço do estacionamento, criou ciclovias e fez planos para até 2020 proibir a circulação de veículos movidos a diesel. Pois é: 6.500 parisienses morrem por ano devido aos efeitos da poluição. Acontece em grande parte porque a capital francesa foi construída muito antes de existirem automóveis e nunca espaço para eles.    
            Sempre digo: resolver o problema do trânsito nas cidades é um processo de aprendizado. Pensando nisso. A primeira coisa que a prefeitura de Paris vai querer fazer (até as Olimpíadas) é reduzir os 150 mil carros estacionados na rua sem fazer nada. Os táxis sem motoristas (dotado por tecnologia) vão funcionar continuamente, quase nunca estacionando entre uma corrida e outra. Os espaços de estacionamento serão convertidos em ciclovias, terraços de cafés ou playgrounds.
            É importante sublinhar que quase dois terços dos 2,2 milhões de parisienses não possuem carro, cuja opção é andar de metrô. Outra realidade: os ônibus urbanos sem motoristas já estão percorrendo as principais avenidas da cidade. Por tudo isso, Paris, capital do século 19, poderá se tornar a capital do século 21.
            É hora de reconhecer e admitir claramente a barafunda do sistema de transportes nas cidades brasileiras. Ineficiente, ele tem futuro incerto. Mas é preciso ser realmente muito bobo, ou desinteligente, para achar que isso é um problema comum das grandes cidades e sem soluções práticas. Ou seja: uma substancial ignorância sobre o assunto.
Taí a encantadora Paris dando grandes lições de mobilidade. Tornando-se, no futuro próximo, a primeira metrópole mundial pós-carros.


                                   LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                     lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                     Advogado e mestre em Administração


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pânico na Rocinha

            É um problema e tanto o que está ocorrendo na Favela da Rocinha. Uma comunidade de 70 mil moradores sob fogo cruzado, quase 3 mil crianças sem aula. Um verdadeiro bangue-bangue na cidade do Rio de Janeiro a ficar de joelhos para o crime organizado.
            Todos que ali residem estão com medo, assombrados, agachados nas trincheiras que construídas para se isolarem, entregues aos mais variados escapes: de drogas e de bandidagens. O intenso tiroteio entre policiais e criminosos provocou tumulto, pânico e alterou a rotina de cariocas.
            É bom lembrar que a guerra na maior favela do País só tomou essas dimensões por causa da falência do Estado, da omissão das autoridades e do fracasso das UPPs, que foram vendidas como solução para conter a violência.
            Ficará mais difícil, para não dizer impossível, fugir dessa realidade. Um bom programa de primeira infância consegueria ajudar a família inteira da favela, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.
            O colapso da segurança é evidente. A promessa de “pacificar” as favelas, através das UPPs, sucumbiu à corrupção e à falta de planejamento. Com a escala da violência, os moradores perderam a liberdade de ir e vir. Acreditem: às vezes, os bandidos ditam o toque de recolher – todo mundo corre para casa, sem dar um pio.
            Os cariocas estão pagando caro por terem confiados nos seus representantes desonestos e incompetentes que não enxergam longe e não querem o bem dos seus conterrâneos, apenas vêem oportunidades para tirar vantagem própria.
            O debate de ideias e de causas sobre a violência do Rio de Janeiro é mais relevante que as pirotecnias expostas pelas nossas Forças Armadas, uma vez que não têm vocação para manter a ordem pública.

                                                   LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                    lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                      Advogado e mestre em Administração


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Trânsito maluco

            Será que tem jeito isso? Claro que sim! Mas é preciso parar, refletir e agir. Vou direto ao assunto: temos que fomentar a cidadania e a inclusão social por meio da universalização do acesso aos serviços públicos de transporte coletivo, agregado com a qualificação, a ampliação e a infraestrutura.
            Modelo de gestão de trânsito preguiçoso, cruel e ineficiente que vemos por aí, diferentemente, aqui, vamos encontrar como bom exemplo as faixas exclusivas para os ônibus ora introduzidas na Avenida Dom Pedro II. Apesar de algumas críticas (manequeista e até simplória), a maioria significativa da população aprovou a iniciativa da Prefeitura de João Pessoa.
            Uma vez meu professor de colegial, Antônio de Sousa, me falou: quando você não tiver certeza daquilo que fala, não diga nada. Pois bem. Causa-me inquietação é saber, por trás dessas críticas isoladas, o que há são desinformações e intrigas decorrentes da política paroquial. Poxa vida! Isso me apoquenta e me envergonha.
            Na minha incauta opinião, passamos sufoco porque as cidades se planejaram para os carros, ponto. Digno de nota: na capital paulista, 25% da área construída é dedicada a estacionamentos. Constata-se que o carro não é mais símbolo de liberdade. Ao contrário: tem se tornado um fardo. Pesquisa da Box 1824 mostrou que só 3% dos jovens do Brasil, entre 18 e 24 anos, desejam comprar carros e motocicletas.
            A tendência é cada vez mais os indivíduos vão preferir utilizar carros, em vez de ser donos deles, menos carros circularão. Outra opção e de baixo custo, é pedir um transporte por um aplicativo (Uber, 99, WillGo e outros) sempre que quiser e onde estiver, e chegar aonde você precisa da melhor maneira possível.
            Menos carros circulando, as grandes cidades brasileiras terão menos trânsito, poluição e estacionamentos. Consequentemente, serão mais vivas, agradáveis e seguras.


                                     LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                      lincoln.consultoria@hotmail.com
                                              Advogado e mestre em Administração


                

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Retrocesso na educação

            Ora, de tanto ler nulidades, todos os dias, nas manchetes de jornal, nosso âmago está ficando sombrio. Como se não bastasse, os efeitos da crise agora estão atingindo os nossos estudantes: sem dinheiro, estão deixando de se matricular e abandonando cursos.
            Algo idiotizado. Porque não dizer perverso para o conhecimento da futura geração de brasileiros. Pois estamos careca de saber que educação é a mola propulsora para o crescimento e desenvolvimento social e econômico de uma nação. Se educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda – já dizia o mestre Paulo Freire.
            Trata-se de uma questão dramática quando se verifica que as Universidades brasileiras estão no pelotão de trás, revela um novo ranking mundial divulgado recentemente. No geral, o Brasil, que havia emplacado 27 entre as 1000 melhores do mundo, agora tem só 21. Mas não só isso: o número de jovens matriculados no ensino superior também encolheu pela primeira vez em 25 anos.
            As notícias não acabam: a crise econômica, que ceifou empregos e deixou os quem têm trabalho com medo da demissão, tem espantado muitos aspirantes à universidade. Também a taxa de evasão dos que já estão lá dentro saltou 44% em cinco anos, a maioria por não conseguir arcar com as mensalidades. A que ponto chegamos!     
Nossos tropeços educacionais estão custando caro para quem de fato almeja um futuro promissor. Para os países desenvolvidos somos tratados como seres apáticos desprovidos de inteligência. Como batessem palmas para a nossa mediocridade.
Não podemos xingá-los por tal atitude, uma vez que a própria ex-presidente Dilma Roussef não consegue lembrar o título  do livro que tanto havia impressionado na semana anterior, ou ex-presidente Lula, que não lia livros porque lhe davam dor de cabeça.
Não acho: minha convicção é que temos uma eterna síndrome de pequenez na educação.

                                      LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                        lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                Advogado e mestre em Administração

        

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A violência sexual

            Começo com um exemplo surreal. Em Uriçuí (sul do Piauí), uma grávida de 15 anos foi estuprada por três adolescentes, e o namorado, morto na sua frente. Em outro caso: um vídeo que circulou nas redes sociais, quatro rapazes estupram uma menina de 12 anos numa comunidade localizada na Baixada Fluminense, no Rio.
            Não é à toa que nesse caldo (do estupro) viceja deterioração e desmoralização a nossas autoridades policiais e judiciais. Cumpre notar que a violência sexual contra a mulher é um crime invisível, há muito tabu por trás dessa falta de dados. Muitas mulheres estupradas não prestam queixa. Às vezes, nem falam em casa porque existe a cultura de culpá-las mesmo sendo as vítimas. Ah, isso tudo dói um bocado.
            Não custa lembrar: pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que apenas 10% do total de estupros são notificados. Considerando que há 50 mil casos registrados por ano (na polícia e nos hospitais), o País teria 450 mil ocorrências ainda “escondidas”.
            Divirjo respeitosamente daqueles que advogam, simplesmente, aumentar pena como solução para acabar com estupro, nunca foi e nunca será. Uma pauta que se apequena. É no mínimo estreiteza intelectual. A verdade é que o estupro já tem uma das maiores penas no Código Penal, e mesmo assim é um crime que está crescendo a cada dia nos prontuários oficiais.
            Ao leitor desse prestigioso jornal, digo sem rodeios: temos que ir até a raiz do problema, enquanto isso não mudar, não vamos mudar esse quadro triste de violência contra as mulheres. E a única forma de resolver esse problema é mudar a mentalidade dos homens através da educação, para que, efetivamente, não cometam mais estupros. Só através da educação, da discussão sobre feminismo e gênero nas escolas, universidades e em todos os locais, que vamos conseguir evitar os estupros.
            Pense bem. Pense com calma. Em razão das mazelas do nosso Sistema Penitenciário, aumento de pena nunca reduziu crime algum e não vai funcionar com estupro.

                                             LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                             lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                Advogado e mestre em Administração


                                                 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A dívida brasileira

            Já disse várias vezes, aqui neste espaço, que sou um otimista contumaz. Mas nem sempre é fácil ter essa percepção à dura prova da realidade que ora passa a economia no Brasil, sobretudo quando vejo o relato feito por um dos mais lendários financistas do País, Luiz Cezar Fernandes.
            Com seu jeito despojado e sem papas na língua, ele diz que o Brasil pode estar caminhando para um calote da dívida interna. Não é suportável com os níveis de taxa de juros. Se o Banco Central reduzisse a taxa Selic para algo em torno de 5% ao ano, nada aconteceria com a inflação. Criticou ainda o rentismo da economia brasileira, que criou uma sociedade de pessoas que vivem de juros, e não da produção. Olha quem está falando isso é um banqueiro, que fundou instituições como Garantia e Pactual.
            Na sua visão, a situação brasileira é mais grave do que da Grécia e a necessidade de ajuste fiscal pode vir a ser muito maior. Ele cita o exemplo de Portugal, em que salários de servidor público chegaram a ser reduzidos em cerca de 30%.
            Tenho que reconhecer que a nossa situação é de urgência. O milagre do crescimento exponencial das receitas, pressupostos para o atendimento do conjunto das demandas, não ocorreu. Apesar de alguns modestos sinais de melhoria da economia, a crise continua braba. Uma verdade indigesta, infelizmente.
            Para quem já queimou os fusíveis, como eu, ainda tento entender o vaivém da nossa política monetária. É insuportável a dívida brasileira com esses níveis de taxa de juros. Não tenho curso de leitura de mãos, mas está na cara que se for mantida a trajetória atual de juros, um calote da dívida é inevitável.
            Com toda franqueza, com essa recessão desenfreada e com a inflação abaixo da meta (sob controle), não podemos perder tempo mais uma vez, aceitando outro ciclo de inércia, de incompetência exacerbada, atraso deliberado, ganância bancária...
            Como diz um bordão de um programa humorista: “E o povo, ó...”.


                                                   LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                 lincoln.consultoria@hotmail.com
                                                             Advogado e mestre em Administração